Japoneses trocam conveniência por preço. No Brasil, a nova etapa da reforma tributária exige atenção ao custo das compras, mas o IVA de 30% ainda é uma projeção.
As compras rápidas do dia a dia estão mudando no Japão. Pressionados pelos preços, consumidores procuram supermercados mais baratos e reduzem as visitas às tradicionais lojas de conveniência. O movimento, descrito pela Reuters nesta sexta-feira (30), chama a atenção para uma pergunta que também interessa ao Brasil: até onde o orçamento da família consegue acompanhar o custo de vida?
Quando a praticidade deixa de caber no bolso
Segundo dados da Associação Japonesa de Franquias citados pela Reuters, o número de clientes das lojas de conveniência caiu por 15 meses seguidos. Em setembro, a queda foi de 3,8% em relação ao mesmo mês de 2025. Na rede de supermercados Seiyu, o fluxo nas lojas existentes cresceu 6,9% no mesmo período.
Redes de conveniência reagem com marcas próprias mais baratas e descontos em combinações de alimentos e bebidas. O consumo das famílias representa aproximadamente metade da economia japonesa, o que dá dimensão ao risco de um aperto prolongado nos gastos.

Inflação menor não significa preço mais baixo
O núcleo da inflação de Tóquio, que exclui alimentos frescos e inclui energia, subiu 2,6% em outubro na comparação anual, após 2,7% em setembro, segundo os dados divulgados nesta sexta-feira e noticiados pela Reuters. O indicador continuou acima da meta de 2% do Banco do Japão.
Isso significa que os preços continuaram aumentando, embora um pouco mais devagar por essa medida. Para uma família, a diferença é concreta: a inflação desacelerar não devolve automaticamente o poder de compra perdido.

Onde o Brasil entra nessa história
O paralelo está no orçamento: quando a conta das compras cresce mais que a renda disponível, a família pode trocar de marca, de estabelecimento ou reduzir a quantidade comprada. Essa é uma relação econômica possível; os dados japoneses, sozinhos, não provam que os brasileiros estejam fazendo a mesma mudança na mesma intensidade.
No Brasil, o debate ganha um componente tributário. O Tribunal de Contas da União calculou em 11,3% a alíquota de referência da CBS, contribuição federal que começará a ser cobrada efetivamente em 2027 e substituirá PIS e Cofins. O cálculo será encaminhado ao Senado, responsável pela definição da referência.
Esse percentual, combinado com uma estimativa de 18,7% para o IBS no modelo completo, levou especialistas a projetar um IVA próximo de 30%, conforme a CNN Brasil. É uma projeção que poderia colocar a alíquota-padrão brasileira no topo mundial, não uma taxa total já definida para todas as compras em 2027.
O que muda em 2027 e o que só termina em 2033
- 2027: a CBS substitui PIS e Cofins; o Imposto Seletivo entra em vigor e o IPI é zerado para a maior parte dos produtos, com exceções ligadas à Zona Franca de Manaus.
- 2027 e 2028: o IBS permanece em 0,1%, conforme o cronograma de transição.
- 2029 a 2032: ocorre a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS.
- 2033: está prevista a aplicação integral do novo modelo.
Portanto, não é correto afirmar que o Brasil terá a maior carga tributária total do mundo já no próximo ano. Carga tributária é a arrecadação de todos os tributos em relação ao tamanho da economia; alíquota-padrão de IVA é o percentual de um tributo sobre determinada base de consumo. São medidas diferentes.
Um imposto de 30% faria o supermercado subir 30%?
Essa conclusão também seria precipitada. Os novos tributos substituem cobranças existentes, e o modelo permite descontar créditos de etapas anteriores. Há ainda produtos com isenção, alíquotas reduzidas e mecanismos de devolução para famílias de baixa renda.
O efeito no preço final depende do produto, da tributação atual, dos créditos e de quanto as empresas repassam aos clientes. Isso não elimina a preocupação com o bolso: mostra por que é necessário acompanhar a conta efetiva, em vez de transformar a alíquota de referência em previsão automática de aumento.
O que dizem fora do Brasil
A reportagem da Reuters também foi publicada pelo jornal japonês The Japan Times. Seu foco é a mudança nas escolhas de compra e o desafio das lojas de conveniência. O paralelo brasileiro desta matéria trata da pressão sobre a renda disponível e da transição tributária; não atribui a mudança japonesa à reforma do Brasil.
Fontes
- Reuters: mudança nas compras no Japão (30/10/2026).
- The Japan Times: cobertura da Reuters no Japão.
- Reuters/CNA: inflação de Tóquio em outubro.
- TCU: cálculo da referência da CBS.
- Receita Federal: cronograma da reforma.
- CNN Brasil: projeção de IVA próximo de 30%.
Apuração de 30 de outubro de 2026. Projeções e referências tributárias podem ser revistas durante a transição.




