A expansão da inteligência artificial está aumentando a procura por um tipo de imóvel que costuma ficar fora das manchetes: os pátios usados para guardar máquinas, materiais de construção e caminhões. Nos Estados Unidos, essas áreas ganharam uma nova função como apoio às obras dos centros de dados que sustentam os serviços digitais.
O movimento foi tema de reportagem do Wall Street Journal nesta segunda-feira (26). No Brasil, há uma conexão concreta no Ceará, onde um terminal do Pecém já movimenta equipamentos destinados a projetos de data centers e busca ampliar a ocupação de sua área externa.
O que são esses pátios?
No mercado internacional, o segmento é chamado de industrial outdoor storage, ou IOS: armazenamento industrial em áreas externas. São espaços usados para acomodar veículos, contêineres, materiais e equipamentos que precisam ficar próximos de uma operação ou obra.
Segundo a Savills, em estudo publicado em setembro de 2023, esse tipo de imóvel atende atividades como construção, transporte, indústria e agricultura. O acesso a rodovias, portos e polos de distribuição ajuda a definir sua utilidade.
Um pátio desse tipo tem função diferente de um galpão fechado. As duas estruturas podem se complementar: cargas resistentes às condições externas ocupam a área aberta, enquanto materiais sensíveis exigem proteção adequada. Servidores, baterias e outros componentes devem seguir as condições de armazenamento determinadas pelos fabricantes.
Por que a IA precisa disso?
Um data center é uma instalação que reúne computadores, sistemas de energia, redes e refrigeração. Antes de começar a processar informações, sua construção exige uma sequência de entregas de concreto, aço, transformadores, geradores e equipamentos de grande porte.
A DAT Freight & Analytics estimou, em julho de 2026, cerca de 100 mil cargas de caminhão para cada gigawatt de nova capacidade de centros de dados. A própria empresa apresenta o número como uma aproximação para planejamento, baseada na quantidade de materiais necessária, e não como uma contagem exata.
Essas entregas precisam acompanhar o cronograma da obra. Quando a instalação ainda não está pronta para receber determinada carga, áreas de apoio ajudam a organizar o armazenamento temporário e a chegada dos equipamentos.

Grandes investidores entraram nesse mercado
A entrada de capital nesse segmento tem exemplos concretos. A Brookfield anunciou em 6 de maio a conclusão da aquisição da Peakstone Realty Trust, em uma operação avaliada em aproximadamente US$ 1,2 bilhão. A carteira reunia imóveis industriais, incluindo pátios e instalações tradicionais; o valor não corresponde apenas a áreas vinculadas à inteligência artificial.
Em 19 de outubro, a Newmark anunciou uma divisão especializada em IOS na América do Norte. A consultoria cita alta de 123% nos aluguéis entre 2020 e 2025 em sua pesquisa sobre o segmento. O dado descreve aquele mercado e período: não mede uma valorização brasileira nem permite atribuir todo o aumento à IA.
No Brasil, a conexão aparece no Pecém
No Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, a Fracht Log oferece um exemplo de como essa cadeia começa a se conectar aos centros de dados.
Em reportagem publicada em 22 de setembro, o jornal O POVO informou que o terminal havia movimentado equipamentos eletrônicos destinados a projetos de data centers. A operação também atende outras cargas, como alimentos, e não é dedicada exclusivamente ao setor tecnológico.
Segundo a publicação, a empresa possui um pátio externo de 65 mil metros quadrados e pretende aumentar sua utilização. A estratégia inclui locação de área com galpões lonados para cargas de longa permanência e atendimento a novos projetos industriais na região.
A Transporte Moderno já havia relatado em abril o plano de direcionar cargas estáticas para o pátio, liberando o espaço coberto para mercadorias de maior giro ou mais sensíveis. Na ocasião, o diretor-geral Thiago Abreu mencionou negociações ligadas a novos investimentos industriais e a combinação de áreas internas e externas para atender às obras.

Oportunidade brasileira tem condições próprias
O caso do Pecém mostra demanda logística associada aos centros de dados, mas também uma diferença em relação ao cenário americano: ali, a empresa ainda busca ocupar mais sua área externa. Não há, nas fontes consultadas, um levantamento nacional que comprove escassez ou disparada dos aluguéis desses pátios no Brasil por causa da IA.
A demanda vai além da locação do terreno. Na página brasileira de seus serviços, a DHL inclui armazenamento, transporte de equipamentos grandes e coordenação das entregas entre as atividades de apoio à construção de data centers.
Para empresas de transporte, armazenagem e movimentação de cargas, esse é um mercado a acompanhar. A análise, porém, precisa partir das obras efetivamente contratadas, dos equipamentos previstos e dos prazos de entrega. Um centro de dados anunciado ainda pode sofrer atrasos ou mudanças antes de gerar serviço para os fornecedores.
A cadeia que sustenta a inteligência artificial inclui atividades como logística, construção e armazenagem. É nessa ligação entre infraestrutura digital e trabalho físico que os pátios industriais estão ganhando espaço.




